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         A Eficácia das Escolas Não se Mede: Ela se Constrói,
         Negocia-se, Pratica-se e se Vive(!)

                                                 Mônica Gother Thurler (2)




Quando se quer medir a eficácia de uma escola, corre-se o risco de aprisionar a sua dinâmica numa perspectiva clássica e somativa, e o de acreditar que categorias pré-fabricadas possam captar uma realidade em constante movimento, que só existe no espaço de interação dos atores envolvidos.
A problemática da eficácia evoluiu. Hoje, está-se abandonando a abordagem inicial, tecnicista e quantificadora, para se colocar em relação diferentes efeitos e  características qualitativas, tais como o clima da escola, sua cultura ou sua ética. Essas características não podem ser captadas pelos métodos clássicos de observação pontual e externa, pois fazem parte de modos de funcionamento que só chegam a ser captados enquanto duram e observando-se as interações e as representações dos envolvidos.
1 Artigo publicado originalmente em CHARRA M. (Org.). Evalution et nanlyse des établissements de formation: problématique et métbodologie. Paris/Bruxelles: De Boeck, 1994. p. 203-224. (Texto reproduzido com a autorização da autora e do editor; tradução de Luciano Lopreto; revisão técnica da tradução de Maria josé do Amaral Peneira).
2 Pesquisadora e professora das Universidades de Genebra e de Fribourg e coordenadora para a pesquisa e a inovação do Depattamento de Instrução Pública do Cantão de Genebra. Tem artigos e livros publicados na Suíça e em outros países, e vem trabalhando com avaliação educacional e inovação nas escolas já há bastante tempo.
Pode-se dar um passo a mais e considerar que a eficácia que conta, em última instância, resulta de um processo de construção, pelos atores envolvidos, de uma representação dos objetivos e dos efeitos de sua ação comum. Assim, a eficácia não é mais definida de fora para dentro: são os membros da escola que, em etapas sucessivas, definem e ajustam seu contrato, suas finalidades, suas exigências, seus critérios de eficácia e, enfim, organizam seu próprio controle contínuo dos progressos feitos, negociam e realizam os ajustes necessários. Isso, evidentemente, coloca duas questões:
• como, então, levar em conta os objetivos e critérios de eficácia do conjunto do sistema educativo, se admitimos que cada escola não é uma empresa autônoma?
• em quais condições os atores têm, ao mesmo tempo, razões e meios de se interrogar lucidamente e sem complacência sobre sua própria eficácia?
Das Escolas Eficazes à Avaliação da Escola: Origens e Implicações do Conceito. O interesse pela eficácia das escolas se inscreve como prolongamento direto de trabalhos polêmicos de diversos autores dos anos 70, que colocavam em dúvida a capacidade das escolas em influenciar verdadeiramente, no sentido positivo, o desenvolvimento das crianças. B. BERNSTEIN (1970) frisava que "a educação não pode compensar os problemas criados pela sociedade". BOURDIEU & PASSERON (1970), ainda mais críticos, afirmavam que a escola não pode senão reproduzir as desigualdades sociais, ao favorecer os favorecidos. Outros pesquisadores sustentavam ainda que a escola tem apenas um efeito limitado sobre a aprendizagem, seja porque os fatores hereditários são predominantes (jense, 1969), seja porque a escola não pode competir com a influência decisiva e praticamente irreversível do background familiar durante a primeira infância
(notadamente J. S. COLEMAN, 1966; PLOWDEN, 1967; C. CHILAND, 1971; C. JENCKS, 1972).
A eficácia do sistema escolar era então objeto de uma visão muito pessimista. Fazia-se, na época, um balanço edulcorado das reformas que pretendiam "compensar" os "handicaps socioculturais", mas sem realmente compreender as razões desses fracassos. Essa confusão e essa decepção levaram alguns
pesquisadores a explorar outras vias e, principalmente, a se interessar de perto por algumas escolas que pareciam exercer uma influência significativa sobre a vida de seus alunos, professores, e até sobre toda a comunidade educativa existente em torno dela. Analisando-se as características organizacionais e contextuais dessas escolas de bom desempenho, esperava-se identificar as condições favorecedoras da eficácia na Educação.
O estudo mais conhecido, intitulado 15.000 Horas de Escola, é de autoria de M. TUTTER et al. (1979). Seus resultados foram, ao mesmo tempo, amplamente confirmados por um grande número de outros autores e violentamente questionados. De fato, nesses estudos, o efeito da escola é estimado através de análises multivariadas complexas, que quase sempre resultam em correlações fracas e instáveis, e a um grau de sofisticação metodológica que acaba aumentando o risco de artificialidade.
Esses estudos exploratórios, entretanto, permitiram demarcar uma série de fatores-chave, que serviram de base, a partir do início dos anos 80, a uma segunda leva de pesquisas, que tenta estabelecer uma relação sistemática entre a eficácia do ensino e algumas características essencialmente qualitativas das escolas, tais como seu clima, sua cultura ou sua ética, ou ainda a "qualidade" do sistema social. Esses trabalhos se filiam a duas correntes teóricas:
a) o interacionismo simbólico, que considera o ensino como uma profissão antes de tudo artesanal, no interior da qual cada um constrói suas próprias significações, representações e práticas, através de suas concepções e valores, de sua personalidade, de sua maneira de estar no mundo e de se adaptar a ele, de sua capacidade de negociar e de satisfazer suas necessidades diante de um contexto social feito de ambigüidades e conflitos, que obrigam a uma negociação constante com os outros: alunos, pais, administração, colegas. Diante de um ambiente pouco favorável, que constantemente coloca o indivíduo diante de obstáculos e de dificuldades, é preciso ser muito ativo, reflexivo e criativo, a fim de não ser vencido por reações emocionais e irracionais hostis a mudanças;
b) o socioconstrutivismo, que mostra que é a construção progressiva das representações, através da experiência e da interação, o que permite aos professores se apropriar de sua profissão. Isto se produz através de um processo de tomada de consciência de si como um ator livre, pelo fato de que nem as estruturas nem os condicionamentos são inelutáveis, sendo em parte escolhidos ou negociados. P. PERRENOUD & C. MONTANDON (1988) insistem na diferença entre ator individual e atores coletivos. Estes últimos, contrariamente ao indivíduo que vê bem rapidamente seus graus de liberdade limitados pelas exigências do sistema, podem defender sua identidade, seus interesses e seus projetos no interior de um sistema mais vasto, conferindo um sentido organizado e negociado a suas iniciativas. Nessa perspectiva, a cultura da escola é vista como o produto de ações regulares desenvolvidas em comum, e da tomada de consciência do fato de que, numa escola, em conjunto, se faz muito mais do que produzir aprendizagens.
A tônica, assim, é progressivamente deslocada para o papel da interação e da comunicação no âmbito da escola, para a busca de uma linguagem comum que permita descrever os princípios espirituais e morais da escola, as significações implícitas e as representações ligadas aos objetivos - na maioria das vezes ocultos
- que regem as estratégias e as práticas dos diversos atores. Essa evolução ampliou consideravelmente os critérios que definem a eficácia da escola. HOPES (1988) identifica algumas qualidades dos diretores eficazes, por exemplo uma "atitude visionária" e uma "presença simbólica". M. FULLAN (1985) chama a atenção para os processos graças aos quais as escolas eficazes dão um sentido à ação dos atores, através de interações intensas, de uma liderança "vivida", de valores e de outras idéias que ultrapassam em muito as formulações racionais que a escola utiliza habitualmente. G. FENSTERMACHER & D. BERLINER (1985), por seu lado, afirmam a importância tanto da dinâmica organizacional interna do sistema quanto do contexto, enquanto L. DARLING HAMMOND & A. WISE (1985) opõem a cultura do ensino à cultura burocrática dos gestores, e observam que as reformas concebidas por terceiros estão, na maior parte dos casos, em desequilíbrio com os valores e crenças internos do sistema dos atores. S. PURKEY & M. SMITH (1985) chegam a ser ainda mais radicais, declarando que "a escola é o centro da mudança, que tem a cultura como alvo primeiro". Os trabalhos mais recentes partem da hipótese de que, para aumentar a eficácia de uma escola, é preciso compreender, e eventualmente transformar, sua cultura. Nessa perspectiva, as escolas são julgadas tanto por sua aparência e sua organização quanto por seus resultados Q. MEYER & B. ROWAN, 1983). A fé e as crenças dos professores, dos responsáveis e da opinião pública dependem menos de experiências concretas que de representações globais, construídas a partir de valores e símbolos compartilhados. Como frisam E. FARRAR, B. NEUFELD e M. MILES, os programas que objetivam aumentar a eficácia das escolas são "reformas baseadas em processos que visam a capturar a imaginação do conjunto de professores, a revitalizar os que estão acomodados e a gerar entusiasmo para o trabalho conjunto a partir de objetivos comuns" (1983, p. 11).
Segundo W G. VAN VELZEN (1985), a avaliação da escola tem como principal objetivo seu aperfeiçoamento. Logo, ela se situa não no registro da medida, mas no da ação, da regulação. Se a avaliação é apenas um meio, é preciso adaptá-la ao que se sabe agora sobre o funcionamento efetivo das escolas. Isso leva, muito logicamente, a colocar a auto-avaliação na base de uma busca da eficácia, apostando-se (M. RUNKEL et al., 1979) num conjunto de procedimentos que tornam a escola capaz de resolver seus próprios problemas:
1. o diagnóstico;
2. a coleta de dados;
3. o desenvolvimento de ações coordenadas;
4. a supervisão.
O primeiro procedimento é o mais importante. O último é o mais raramente realizado. Não se pode esperar melhorar a eficácia de uma escola cujas iniciativas são neutralizadas por demandas contraditórias (fatores externos), ou que fracassa em institucionalizar sua capacidade de diagnóstico ou de ação coordenada (fatores internos).
Insistir na auto-regulação das escolas implica lhes conceder uma autonomia importante, tanto no estágio da explicitação dos critérios e do diagnóstico quanto no das ações empreendidas. Essa concepção rompe radicalmente com as práticas burocráticas e centralistas ainda atualmente em vigor na maior parte dos sistemas escolares. Ela se baseia implicitamente num conjunto de postulados quanto à maneira pela qual se opera a mudança (DAVID, 1982):
1. nenhuma mudança se produz se não se levarem em conta características particulares da escola e do meio que a cerca;
2. os professores não terão nenhum interesse pessoal na mudança (e nem na avaliação) se não participarem das decisões que dizem respeito aos objetivos e aos procedimentos adotados;
3. uma escola eficaz se caracteriza pelo fato de que o movimento é comum à escola como um todo, e pelo fato de que existe um conjunto de objetivos unanimemente compartilhados e um método de ensino
unificado;
4. se, no planejamento, se incentivar o corpo docente a tomar consciência da situação e a refletir, serão muito maiores as chances de os professores modificarem seu comportamento e suas
atitudes.
Na prática, constata-se que as escolas raramente ultrapassam o primeiro estágio de M. RUNKEL - o do diagnóstico. Esse fato pode ter diversas explicações:
a) o próprio conceito de avaliação não está claro, faltando critérios precisos; ao mesmo tempo, seria falso querer impô-los logo de início: eles devem ser negociados no interior da escola e das
equipes educativas;
b) a finalidade da avaliação não está clara: avalia-se um produto final de maneira somativa, a fim de poder comparar e ordenar diversas escolas, o que permite a terceiros utilizar esses resultados para fins "estratégicos" (avaliação das funções, atribuição de recursos etc.)? Ou se adota uma lógica de avaliação formativa/ formadora, cujo objetivo consiste em desencadear um processo de longo prazo pelo qual os próprios professores se tornam responsáveis? Trata-se de se situar em relação a normas externas? Ou de realizar um confronto de práticas e fazer emergir normas internas, explícitas e implícitas, mesmo correndo-se o risco de ter de modifica-las em seguida? A quem prestar contas dos resultados da avaliação?
Eles são automaticamente comunicados às autoridades, aos pais, ou pertencem, primeiramente, à equipe de professores?
c) na maior parte dos casos, falta uma estrutura suficiente que permita à equipe fazer um bom trabalho. Um empreendimento desses leva tempo e não pode ser conduzido junto com as tarefas habituais. Ele necessita de um apoio eficiente e profissional de um participante externo, versado em métodos de animação e que conheça bem a realidade escolar, que desencadeie a reflexão, que ajude os participantes a se falarem e a se escutarem, que coloque em discussão tanto os pontos fortes quanto as disfunções, que proteja os professores de conclusões precipitadas, que os leve a verbalizar e a formular os pontos sensíveis, os não-ditos e os tabus etc.
Resumindo:
• a avaliação da escola/processo da mudança enfatiza mais o desenrolar das atividades que os resultados. Trata-se de uma empreitada sistemática e não somente de um tema pontual de reflexão;
• a avaliação tem por objeto o aperfeiçoamento, e o desenvolvimento do funcionamento da escola se constitui em uma fase dos procedimentos utilizados
para esse fim;
• ela é feita através de um trabalho em grupo, e todos os que dela participam devem consentir na realização de um esforço coletivo;
• os procedimentos adotados são próprios à escola e devem considerar, portanto, os diversos aspectos de sua organização. Esses diversos pontos podem ser organizados em cinco zonas. O modelo das cinco zonas.
Esse modelo(3) propõe um levantamento dos diversos aspectos da organização e da dinâmica internas que devem ser levados em conta em um procedimento de auto-avaliação ou de avaliação negociada. Trata-se essencialmente de evitar os desequilíbrios, colocando-se em evidência as interdependências e a necessidade de coerência: os elementos/ critérios de avaliação vinculados a uma das zonas são forçosamente ligados a elementos /critérios pertencentes a outras zonas.
Na primeira zona, encontram-se os objetivos e os fundamentos pedagógicos (dito de outra forma, as diversas competências cognitivas, afetivas e sociais visadas), as práticas didáticas e avaliativas (por exemplo, a tônica colocada na diferenciação e na avaliação formativa), as prioridades de desenvolvimento da escola. Encontramos aqui, ao mesmo tempo, os elementos prescritos pelos planos de estudos oficiais e os objetivos que fazem parte do currículo implícito, o que descreve, em suma, o impacto que o estabelecimento pensa ter nos desempenhos, comportamentos e atitudes dos alunos e dos professores.
Nessa zona, M. RUTTER et al. (1979), T. PETERS & R. WATERMAN (1982), H. HAENISCH (1985) e HOPKINS (1990) identificaram uma série de características dos estabelecimentos eficazes:
• o ensino é orientado segundo as necessidades dos alunos: eles são levados a sério, tem-se confiança neles, levam-se em consideração suas necessidades e interesses pessoais, está-se disponível para entrevistas pessoais, encoraja-se os alunos a agir de maneira cooperativa e autônoma;
• o ensino visa a tornar o aluno ativo, a implica-lo em sua própria aprendizagem, isto é, a fazê-lo participar da definição dos objetivos, do material, das situações, dos métodos e do próprio planejamento do ritmo de sua aprendizagem. O professor, por sua vez, desempenha aqui o papel de assessor; ele está mais centrado na escuta e na construção dos conhecimentos, práticas e vivências de seus alunos do que em seu ensino. Nessas escolas, há menos ensino e mais aprendizagem;
• há padrões de desempenho adequados, claros e explícitos, visando a uma formação equilibrada dos alunos. Mas eles não são impostos de forma rígida: são negociados, reconhecidos e
aceitos por todos; 3 Ver esquema no Anexo.
• adota-se um estilo de ensino flexível e diversificado, visando a levar em conta as potencialidades de cada aluno, dar reforços positivos, criar transparência (objetivos a atingir, conteúdos e modos de trabalho, critérios de êxito etc.);
• pratica-se uma avaliação diagnóstica e formativa, essencialmente utilizada para guiar a instrução e para regular a aprendizagem., Para esse fim, recorre-se pouco aos testes convencionais e padronizados; qualquer observação e qualquer tipo de produção dos alunos é pretexto de avaliação.
Questões:
- Qual é o papel do currículo compartilhado, em comparação ao do currículo oculto?
- Qual é a tônica dada ao processos, à capacidade de aprender a aprender e à pedagogia ativa, comparada à tônica posta nos produtos e desempenhos e no ensino magistral?
- Qual o grau de praticabilidade dos objetivos e das prioridades de desenvolvimento enunciados?
- Qual o grau de coerência com a organização interna da escola?
- Que estatuto é atribuído à avaliação (auto-avaliação dos alunos) e à reflexão?
- Quais são os impactos específicos esperados nos professores e nos alunos?
Na segunda zona, encontra-se a cultura da escola - uma dimensão vital, mas até agora negligenciada na maioria dos projetos de inovação e de avaliação, o que constitui, segundo os defensores da perspectiva cultural, uma das razões maiores do fracasso desses projetos. De fato, no passado, enfatizavam-se por demais mudanças e projetos específicos para o professor individual em sua sala de aula. Levar em conta a cultura do estabelecimento é refletir sobre os valores e as normas, identificar o modo como "as coisas são pensadas e feitas ali", a maneira como os atores captam e descrevem a realidade, reagem à organização, aos
acontecimentos, às palavras e às ações, as interpretam e lhes dão sentido.
Nessa perspectiva, a cultura pode ser definida como o conhecimento socialmente compartilhado e transmitido daquilo que existe e deveria existir. O significado desse conhecimento é transmitido, muitas vezes, involuntária e implicitamente, e é simbolizado através dos atos e dos produtos, assim como pela linguagem: o modo como as pessoas falam de seu mundo, do que elas falam e do que não falam, com
quem e onde. A cultura do estabelecimento é ativamente construída pelos atores, mesmo que
inconscientemente. Trata-se, enfim, "de um processo dinâmico, evolutivo, de um processo de aprendizado que se desenvolve através das soluções que um grupo encontrou para problemas surgidos". O conteúdo de uma cultura pode ser definido "...como soma das soluções que funcionaram suficientemente bem para que se tornem evidentes e sejam transmitidas aos recém-chegados como formas corretas de captar, de pensar, de sentir e de agir" (E. H. SCHEIN, 1984, p. 34).
Os tipos de cultura que levam a uma eficácia ótima são:
• uma cultura que favoreça a comunicação e a cooperação, graças à qual os professores se considerem não como uma multidão de "combatentes solitários", mas, ao contrário, como profissionais capazes e desejosos de se consultar, de forma continua, sobre todos os problemas que envolvem o ensino, sobre a implantação de novas práticas, sobre os diversos problemas de ordem teórica e prática que surgem dia após dia;
• uma cultura que privilegie o entendimento e a negociação, atingindo o consenso no que diz respeito a certos valores, normas, expectativas e crenças, ao ideal coletivo, à ideologia subjacente às escolhas feitas, à atitude a ser adotada diante de pressões internas e externas, a certos objetivos, certas "regras de comportamento geral", como, por exemplo, a disciplina;
• uma cultura que crie uma forte identidade profissional eleve os professores a se investir coletivamente de uma "missão" comum, a manifestar uma orientação visível e ativa em direção a objetivos
comuns a curto e a longo prazo (R. VANDENBERGHE & K. STAESSENS, 1991).
Na terceira zona, situaremos a organização interna da escola: o estilo de gestão e direção, as boas relações entre os professores, o contexto no qual o corpo docente é chamado a funcionar (a organização dos horários e do espaço, a distribuição dos alunos segundo grupos da mesma faixa etária ou grupos mistos, os procedimentos de agrupamento e de promoção, a forma de certificação etc.). Não é necessário insistir nesses fatores internos, na medida em que eles têm sido o alvo principal das tentativas de reforma, muitas vezes sendo encarados como os únicos facilitadores da mudança visada ou os únicos obstáculos. O que foi
ignorado durante muito tempo é que a organização de uma escola é o reflexo direto do sistema de valores subjacente - daí a relação estreita entre a cultura da escola e a organização.
Aqui estão, sob esse ângulo, algumas características das escolas eficazes:
os diretores são iniciadores otimistas; definem claramente os objetivos, organizam os intercâmbios e zelam pela execução das decisões tomadas, estão abertos, a novas idéias, mantêm um contato
estreito com os professores, encorajam-nos, abrem a escola para o ambiente externo, colaboram estreitamente com os pais;
os professores - e em certa medida os alunos - participam do planejamento e das decisões; buscam-se acordos durante reuniões de trabalho eficazmente conduzidas, apoiadas em programas de formação, e durante as quais são discutidas e tomadas decisões envolvendo a organização interna e externa do estabelecimento: horários, atividades, utilização dos recursos materiais e humanos,
formação continuada, prioridades de desenvolvimento etc.;
a equipe de professores é composta por homens e mulheres de valor, felizes, criativos, confiantes e empenhados, sempre dispostos a questionar e a aperfeiçoar suas competências pedagógicas;
dispõe-se de certos recursos materiais e humanos que permitem que os professores participem de atividades de desenvolvimento e apropriem-se de novas práticas;
tem-se nelas uma boa tolerância diante do fracasso, e tem-se e favorecese a coragem de tatear e experimentar: a criatividade e a adoção de novas práticas só são possíveis numa organização na qual
a ação não está "congelada" em horários, em postos orçamentários e em estruturas de funcionamento inflexíveis.
Na quarta zona, encontra-se a organização dos contatos com o mundo externo: as autoridades escolares, os recursos em nível de sistema, os pais.
Evidentemente, os contatos dependerão em larga medida do clima sociopolítico e cultural do sistema ao qual a escola pertence. A eficácia nessa zona dependerá da capacidade da equipe de professores em estabelecer relações estreitas com os pais e implicá-los na organização da vida escolar. Dependerá igualmente de sua
capacidade para encontrar o tom e a abordagem que consigam convencer tanto os pais quanto as autoridades de que os objetivos e as prioridades definidos não se chocam com as diretrizes prescritas nos currículos nacionais/regionais. Além disso, a eficácia dependerá ainda, em grande parte, da capacidade da escola em utilizar da melhor forma os recursos internos e externos disponíveis para ajudá-la em sua tarefa.
Da parte do poder central, pode-se imaginar que os problemas variem conforme o grau de ensino envolvido. Enquanto, na maioria dos países, a autogestão da escola é geralmente um fato consumado no ensino secundário, esse não é o caso do ensino primário. Portanto, é nesse nível de ensino que se corre maior risco-por excesso de boa vontade ou em decorrência de uma má interpretação de suas finalidades - de que a avaliação seja imposta aos estabelecimentos, sem se considerar o fato de que essa imposição se acha em contradição absoluta com seus postulados básicos e, sobretudo, com suas finalidades: aumentar a eficácia do sistema. A julgar pelo endurecimento do tom nos países anglo-saxões, e pela quantidade de restrições econômicas que não tardaram a atingir a escola, podemos nos perguntar em que medida as autoridades estarão dispostas a garantir procedimentos que só aumentam a dificuldade em administrar um
conjunto disparatado e facilmente percebido como "ingovernável", logo que uma escola se diferencia de outra. Cabe lembrar, aqui, que os estudos sobre as escolas eficazes frisam o justo equilíbrio entre autogestão e poder central, entre a autonomia da escola e o apoio a seus esforços pedagógicos pelas autoridades escolares.
Questões:
- A decisão de realizar a avaliação emana da escola ou do poder central?
- Os recursos disponíveis são suficientes? (no plano material: liberação de obrigações, possibilidades de encontro etc.; no plano pessoal: preparação suficiente do especialista designado)
- Espera-se uma avaliação dos desempenhos ou uma avaliação baseada na deontologia, na expluitação de uma ideologia?
- O objetivo é melhorar as práticas ou nada mudar? - A quem se deve prestar contas?
- O poder central está disposto a permitir uma flexibilidade nas estruturas, nos programas e no pessoal envolvido, afim de se ajustar às flutuações da população escolar e às necessidades diagnosticadas nas escolas?
-Está ele disposto a considerara diversidade não como uma tara, ou um mal necessário, ma como um elemento positivo e mobilizador?
- Está ele disposto a incentivar as escolas a refletir sobre seu contexto local, sua história, tua cultura organizacional, ruas crenças comuns em relação a objetivos e finalidades, a critérios de qualidade e de êxito, assim como aos graus de Liberdade para mudar, melhorar e desenvolver competências em setores diversificados?
No centro do modelo se encontra a quinta zona, o "clima" da escola. O conceito de "clima" tem estado sujeito mais ainda a controvérsias que o de eficácia, e mereceria ser aprofundado no futuro. Trata-se da categoria mais "tangível" e, ao mesmo tempo, mais subjetiva: é a atmosfera que acolhe o visitante - não-ingênuo - que entra numa escola e procura se situar, observando, discutindo com os alunos e professores, percorrendo os espaços, participando do trabalho nas classes, entrando na sala dos professores, lendo o que está afixado no quadro de avisos etc.
Uma escola, como conjunto vivo de pessoas que convivem e que colaboram, desenvolve sua própria linguagem, possui suas palavras, seus próprios conceitos, rituais e modos de expressão familiares, que facilitam a comunicação, dão segurança, fornecem a cada um a impressão de "estar em casa", ajudam cada um a tomar consciência do que é importante na vida cotidiana. Conforme o "clima" existente, uma escola será mais ou menos aberta ao questionamento, à mudança, à auto-avaliação. Essas são as características mencionadas na literatura:
• Engajamento: uma forte impressão de razão de .ser, o que permite rapidamente socializar os recém-chegados e controlar o comportamento dos veteranos.
• Grande confiança em si e no outro. Os professores esperam que os alunos aprendam, e os alunos, por sua vez, esperam ser auxiliados, para isto, por professores competentes. Os diretores são surpreendidos pelo fracasso, quando este acontece. Os professores são surpreendidos por administradores pouco exigentes para consigo mesmos e para com os outros.
• Orientação para ação. Os membros das boas escolas têm um fraco pela ação, são orientados para o sucesso e mostram uma boa dose de pragmatismo. Vivem no presente, aproveitam as ocasiões que se apresentam, colocam em prática novas idéias, abandonam métodos que se mostram ineficazes e respeitam seus limites.
• Flexibilidade dos papéis. A eficácia, a criatividade e o espírito inovador não são apanágio de alguns lideres, mas surgem em profusão.no interior dos subgrupos, graças ao fato de que o lides em função cria numerosas ocasiões para permitir o aparecimento de outros lideres, que são, então, ativamente apoiados em seus procedimentos.
• Prioridades claramente definidas, partilhadas, abertamente formuladas, anunciadas, identificáveis através da organização dos espaços e das classes, dos ritmos do ano escolar, dos rituais etc.
Ambiente organizado e tranqüilizador, que oferece um local de vida e de trabalho agradável, tanto para os alunos quanto para os professores.
Questões:
- Qual é a atitude dos professores? (coerência com os objetivos e os valores enunciados, criadores, reformadores versus executantes, stewards)
- Como o profissionalismo se manifesta? (auto-estima, crise de identidade, responsabilidade alternada, liderança rotativa)
- Visa-se à manutenção do equilíbrio ou ao diagnóstico sistemático do problema existentes e sua resolução? (discussão nas salas de professores sobre o tempo, esportes, animais domésticos versus trocas de experiências pedagógicas e didáticas etc.)
- O estilo de se relacionar é válido para todos? (autoritarismo versus negociação, atitude crítica versus submissão na relação professor-professor, professor-aluno, aluno-aluno)
- Até que ponto os diversos atores compartilham uma visão e objetivos comuns?
- Como se manifesta a colegialidade/flexibilidade nos papéis e estatutos?
- Como são geridos os processos de socialização dos novos professores e novos alunos?
- Quais os exemplos concretos de linguagem comum? (anedotas, expressões, anúncios, cabeçalhos de circulares etc.)
- Quais são as cerimônias, rituais, símbolos etc. existentes?
Conclusão:
O modelo que acaba de ser apresentado não pretende ser exaustivo, na medida em que os parâmetros não param de mudar, tanto no plano das contingências quanto no dos conhecimentos e abordagens teóricos. Resta uma linha condutora geral: evitar a qualquer custo as contradições entre os objetivos e os métodos
adotados.
Uma avaliação que tenha objetivos funcionais a curto prazo e que procure melhorar as práticas vai, forçosamente, centrar-se muito mais nos conteúdos, por exemplo nos problemas específicos encontrados pelos professores no momento da introdução de novos programas. Ela resultará em formas de regulação que ajudarão os professores a se adaptar, a aprender, como bons técnicos, a melhor executar as medidas impostas por outros, sem necessariamente se sentirem obrigados a modificar sua maneira de ensinar. Uma avaliação que tenha objetivos estruturais a médio prazo terá como meta a mudança organizacional e resultará
forçosamente na mudança do ambiente de trabalho e de aprendizado dos professores, por exemplo levando-os a desenvolver uma cultura própria. Uma avaliação que tenha objetivos "visionários" a longo prazo atingirá a identidade profissional dos professores, que serão vistos como gestores principais da dinâmica interna do estabelecimento, e a quem se pedirá para ser ativos, pensadores, criadores de significados e de cultura, parceiros e exploradores, e por que não, às vezes, até mesmo sonhadores.
Uma segunda linha condutora consiste em considerar os três pontos seguintes, próprios ao sistema escolar em seu conjunto: Nunca um instrumento de avaliação será aceito unanimemente. Mesmo construído para fins de comparação "científica", ele chegará a resultados que serão sempre duplamente contestados do ponto de vista de sua validade e de sua confiabilidade em relação aos dados contextuais específicos. Mesmo construído levando em conta diversos aspectos da eficácia da escola, e definindo critérios de maneira soft e combináveis de várias formas, ele entrará em choque com as representações subjetivas e divergentes dos professores quanto a suas tarefas, funções e responsabilidade. Nem todos os objetivos podem ser igualmente avaliados. As exigências da medida privilegiam objetivos no plano dos conteúdos cognitivos e
dos desempenhos, isto é, tudo, o que for transformável em itens e em questões objetiváveis e, melhor ainda, quantificáveis. Em contrapartida, a avaliação de objetivos globais, como a criatividade, a coerência, a colaboração, o estilo de liderança etc., exigiria instrumentos muito complexos e sofisticados, que produziriam apenas estimativas muito discutíveis. Restringir-se aos objetivos facilmente avaliáveis obrigaria, portanto, a limitar a avaliação aos aspectos mais convencionais da escola, os quais, sabemos, têm somente um impacto limitado na mudança de atitudes e de práticas.
Uma constatação de ineficácia só excepcionalmente resultará em mudança. Contrariamente ao mundo das empresas, onde esse tipo de constatação rapidamente resulta em medidas radicais tanto no plano da reestruturação do pessoal quanto no das práticas, a escola administra diferentemente as diferenças interpessoais: tudo se acomoda, nada é julgado abertamente, evita-se discutir alguns assuntos, existe uma certa censura. Contentamo-nos com avaliações pontuais em vez de se implantar uma cultura e, conseqüentemente, as estruturas de colaboração que permitem neutralizar as defesas, colocar o problema sem ferir, sem acusar, sem dramatizar, e desencadear, em seguida, os procedimentos necessários para sua solução. Notemos aqui que, na maioria dos estabelecimentos, tais estruturas existem, mas são, geralmente, pervertidas para fins administrativos ou de formação pontual, sem método nem animação apropriados para superar as conivências e as regras de coexistência.
A terceira linha condutora, nós a formulamos desde o início: abster-se de medir a eficácia da escola não significa rejeitar a idéia de eficácia. Mas conviria, primeiramente, iniciar, no interior da escola, uma reflexão envolvendo o conceito de eficácia e negociar, em seguida, os objetivos, as formas e os procedimentos de
uma avaliação que, além do diagnóstico, permita elaborar o sentido da mudança e colocá-lo em prática.
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Para avaliar é preciso medir, certo? Errado.

Esta é a resposta de Monica G. Thurler, ao nos apresentar um novo olhar sobre a eficácia das escolas e a avaliação.
Inicialmente, a autora faz um breve histórico sobre a questão da eficácia. Situa o surgimento do interesse pelo assunto nos anos 70, quando predominaram trabalhos com perspectivas "pessimistas" sobre o papel da escola no desenvolvimento das crianças ou em relação à sociedade.
Diante deste quadro, alguns estudiosos começaram a se perguntar:

Como, então, algumas escolas dão certo ?

O interesse voltou-se para as boas escolas, no sentido de investigar as condições que as tornam eficazes.
Nos anos 80, surgiram novos estudos relacionando a eficácia das escolas a características qualitativas. O papel da interação e da comunicação no interior da escola tornou-se um consenso entre os pesquisadores.

Mas, qual a relação entre eficácia e avaliação ?

Monica Thurler afirma que a avaliação, mais especificamente a auto-avaliação, está na base da busca pela eficácia escolar.
Isto porque a avaliação, entendida como um processo, tem por objetivo melhorar a escola, e não medir resultados. Isto é, deve servir para alcançar algo que, no caso, é o aprimoramento da escola e das ações que nela têm lugar.
A proposta de auto-avaliação, por sua vez, tem como pressuposto a crença na capacidade da escola de resolver seus próprios problemas.

Ninguém melhor do que os próprios envolvidos para dizer o que precisa ser mudado e como isto pode ser feito. Ou seja, os procedimentos utilizados em uma avaliação devem ser próprios à escola, considerando, portanto, suas especificidades.
Para que esta autonomia na avaliação seja possível, como nos diz a autora, são necessários quatro tipos de procedimentos:

* o diagnóstico;
* a coleta de dados;
* o desenvolvimento de ações coordenadas; e
* a supervisão.
Destes, no entanto, apenas o primeiro (o mais importante) costuma ser realizado nas escolas. Isto pode ser explicado por vários motivos:
* porque o próprio conceito de avaliação não está claro, ou seja, não se sabe o que se tem a fazer;
* ou mesmo a finalidade da avaliação não está clara, isto é, para que servirá aquilo;
* ou ainda falta estrutura adequada para a realização da avaliação, como tempo (já que não há como conciliar as atividades avaliativas com as tarefas habituais) e apoio externo (profissional qualificado que auxilie no processo).
Ao conceber esta forma de avaliar e de promover a eficácia das escolas, a autora parte de alguns pressupostos. São eles:
* nenhuma mudança ocorre sem que sejam levadas em conta as particularidades de cada escola e seu contexto;
* os professores não terão interesse na avaliação e nas mudanças propostas se eles não participarem das decisões acerca dos objetivos e dos procedimentos a serem adotados;
* uma escola eficaz se caracteriza pelo fato de que o movimento gerado pela avaliação seja comum para a escola como um todo e haja um conjunto de objetivos compartilhados;
* as chances de os professores modificarem sua postura serão maiores se eles tomarem consciência da situação e refletirem durante o planejamento das ações.
A partir de todos estes aspectos envolvidos em uma nova concepção de avaliação e eficácia das escolas, a autora propõe um modelo de avaliação: o Modelo das Cinco Zonas.

Essas zonas são interdependentes. Veja algumas de suas características:
Ensino orientado segundo as necessidades dos alunos: eles são levados a sério, tem-se confiança neles, encoraja-se a agirem de maneira cooperativa e autônoma.
Formação equilibrada do aluno com padrões de desempenho adequados, claros e explícitos negociados, reconhecidos e aceitos por todos.
Implicar o aluno em sua própria aprendizagem, fazendo-o participar da definição dos objetivos, do material, das situações, dos métodos e do próprio planejamento.

Cultura da escola: conhecimento socialmente compartilhado e transmitido daquilo que existe e deveria existir.
A organização interna da escola: estilo de gestão e direção, as boas relações entre os professores, o contexto no qual o corpo docente é chamado a funcionar.
Clima da escola: uma escola, como conjunto vivo de pessoas que convivem e colaboram, desenvolve sua própria linguagem, possui suas palavras, seus próprios conceitos, rituais e modos de expressão familiares que facilitam a comunicação, dão segurança, fornecem a cada um a impressão de "estar em casa".
Implicar os pais na organização da rede escolar e estabelecer relações estreitas, bem como com as autoridades escolares.
Administrar o justo equilíbrio entre autogestão e poder central, entre a autonomia da escola e o apoio a seus esforços pedagógicos pela atividade escolar.

"Insistir na auto-regulação das escolas implica lhes conceder uma autonomia importante, tanto no estágio da explicitação dos critérios e do diagnóstico quanto no das ações empreendidas"
"Uma cultura que favoreça a comunicação e a cooperação, graças à qual os professores se considerem não como uma multidão de "combatentes solitários", mas ao contrário, como profissionais capazes e desejosos de se consultar, de forma contínua, sobre todos os problemas que envolvem o ensino, sobre a implantação de novas práticas, sobre os diversos problemas de ordem teórica e prática que surgem dia após dia."
"...conviria, iniciar, no interior da escola, uma reflexão envolvendo o conceito de eficácia e negociar, em seguida, os objetivos, as formas e os procedimentos de uma avaliação que, além do diagnóstico, permita elaborar o sentido da mudança e colocá-lo em prática."

Publicação: Série Idéias n. 30. São Paulo: FDE, 1998
Páginas: 175-192.

1. Proposições iniciais
Falar de multiculturalismo é falar do manejo da diferença em nossas sociedades. No entanto, isto é ainda pouco para definir as implicações do termo. Pois, ela remete não apenas a um discurso em defesa da diversidade de formas de vida existentes nas sociedades contemporâneas, mas a um conjunto de aspectos fortemente ligados entre si e que carregam a marca de um contencioso: a) o reconhecimento da não-homogeneidade étnica e cultural dessas sociedades; b) o reconhecimento da não-integração dos grupos que carregam e defendem as diferenças étnicas e culturais à matriz dominante do nation-building nessas sociedades – após o fracasso seja de políticas assimilacionistas, seja de políticas diferencialistas (baseadas na restrição de acesso ou mesmo na idéia de “desenvolvimentos separados”); c) a mobilização dos próprios recursos políticos e ideológicos da tradição dominante nos países ocidentais – o liberalismo – contra os efeitos desta não-integração; d) a demanda por inclusão e por pluralidade de esferas de valor e práticas institucionais no sentido da reparação de exclusões históricas; e) a demanda por reorientação das políticas públicas no sentido de assegurar a diversidade/pluralidade de grupos e tradições.

Além disto, há que considerar que a crescente sensibilidade para o tema da diferença e sua articulação em termos socioculturais sob a forma de uma reivindicação de direitos para grupos subordinados se liga a um descentramento da cultura ocidental que assume duas modalidades paradoxais. De um lado, através da matriz colonialista e imperialista que difundiu-se mundo afora entre os séculos 16 e início do século 20, levando com ela modelos de organização social, desenvolvimento e mudança política que em larga medida se institucionalizaram no atual sistema de estados nacionais e numa economia mundial dominada inteiramente pelo capitalismo. Práticas, valores e instituições historicamente construídas a partir da modernidade européia e norte-americana se espalharam pelo mundo, tornaram-se ideais de progresso e emancipação, mas também se impuseram onde a resistência se fez mostrar. Uma intrincada composição de agentes “metropolitanos” e locais encarregou-se de dobrar a resistência, forjando uma uniformidade que atendia pelo apelo da Nação em busca de seu futuro no “mundo moderno”, atribuindo lugares aos que se posicionavam – contra ou a favor – frente às formas concretas de implementação destes projetos de modernização. Este descentramento do Ocidente que leva ao modelo do estado nacional e à trajetória da modernização representa o grau zero das disputas multiculturais[2].

De outro lado, a história do século 20 foi acumulando uma crescente desconfiança ou recusa dos modelos modernizadores – liberais como socialistas – que sofre, a partir dos anos 60, uma importante inflexão através de movimentos sociais e intelectuais de contestação política e cultural, ocorridos em várias partes do mundo, os quais contribuíram para deslegitimar, questionar e enfrentar a idéia hegemônica de Ocidente. Este descentramento crítico se expressou na emergência de novas formas de identificação coletiva – negros, mulheres, povos indígenas, ecologia, pacifismo, juventude, movimentos religiosos – e novas formas de pensamento, que puseram em questão o etnocentrismo e o caráter excludente da ordem liberal vigente. Nos países latino-americanos, a emergência destas formas sociais e intelectuais do descentramento incluía ainda a resistência contra a associação da modernização capitalista com regimes autoritários e tecnocráticos baseados em alianças civis-militares. Este descentramento que leva à afirmação da pluralidade de esferas públicas, dos direitos dos grupos historicamente excluídos social ou culturalmente, representa o primeiro momento de emergência de bandeiras multiculturais[3].

Mais recentemente, entretanto, uma nova onda de expansão ocidental tem se dado, a qual é capturada pela idéia de globalização. Embora o caráter deste processo seja altamente disputado, ele parece intensificar o duplo descentramento ao mesmo tempo em que reforça o paradoxo entre suas duas modalidades. Pois, ao mesmo tempo que a globalização representa uma certa forma de interconexão e interpenetração entre regiões, estados nacionais e comunidades locais que está marcada pela hegemonia do capital e do mercado, ela também se faz acompanhar por uma potencialização da demanda por singularidade e espaço para a diferença e o localismo. O discurso multiculturalista, neste sentido, tanto beneficia-se de como impulsiona a globalização, embora em direções nem sempre favoráveis às falas dominantes sobre a mesma.

Sob qualquer destas formas, o multiculturalismo está envolvido num contencioso, numa disputa que vai além do manejo de uma diversidade que simplesmente se dá, como mera constatação empírica. Para além ou na base das demandas lançadas ao estado, ao mercado e a outros atores sociais, há movimentos de retorno ao passado, de reconstrução ou de invenção de identidades coletivas, bem como há cobranças por redefinição de padrões societários. E esses movimentos disputam entre si ou articulam-se de formas surpreendentes, mas também instáveis e parciais. A vinculação das demandas multiculturais com a problemática dos direitos, através de um discurso sobre a legitimidade das diferenças e a necessidade de reparação tem aparecido, simultaneamente, como uma tentativa de “pacificar” o caráter mais “truculento” da emergência desses novos atores sociais que postulam uma identidade de base cultural, e como aprofundamento da disputa, uma vez que claramente há reivindicações de poder envolvidas.

Nosso objetivo neste trabalho, entretanto, não é discutir pormenorizadamente o conceito de multiculturalismo ou os casos concretos de aplicação de modelos nele inspirados[4]. Antes, gostaríamos de nos concentrar sobre dois aspectos fortemente relacionados à problemática multicultural: a associação entre identidade e localismo (sob a égide da cultura, da tradição, da etnicidade, do nacionalismo, da religião) e a contradição entre afirmação da identidade e o avanço da globalização, seja esta pensada sob a forma de um processo direcionado a partir de um “centro” ou como um conjunto de fluxos produtores de conjunções e disjunções (cf. Featherstone, 1995; Appadurai, 1991). Juntos, estes aspectos marcam o embate entre “localização da cultura” (para usar livremente a expressão de Homi Bhabha) e a desterritorialização introduzida pelos fluxos globais. Assim, a emergência de demandas identitárias na cena contemporânea ora representam uma recusa dos grandes modelos mas também das tendências globalizantes; ora uma defesa da “autenticidade” das experiências particulares e enraizadas num determinado tempo e espaço comunitário contra as forças desterritorializantes, “abstratas”, do mercado ou da cultura de massas; ora uma dificuldade de vivenciar os efeitos do deslocamento que a globalização introduz nos contextos locais, identificando esta último com um complô das grandes potências capitalistas, a dominação da cultura de consumo ou a violação da soberania nacional[5].

É possível, neste contexto, articular identidade e globalização? É preciso opor identidade a globalização? O contexto global representa possibilidades ou ameaças à experiência local? Como compreender o tipo de problema que a lógica global introduz no espaço-tempo da identidade? Como enfocar a globalização de forma a entender o lugar que aí ocupa a experiência da identidade?

Partiremos aqui da afirmação de que a globalização, naquilo em que se presta a uma análise cruzada com o tema da identidade, representa a vigência de um princípio de ruptura do liame dual micro/macro, estável/dinâmico, concreto/abstrato, particular/geral, princípio este que funciona como um “terceiro” e desencadeia uma lógica que não exige o fim das referências locais, mas as reinscreve num terreno em que estas não mais podem se definir pelo isolamento nem tampouco pela territorialidade. Sendo assim, a globalização tanto forma como deforma, tanto exige como resiste à identidade enquanto signo do local, do singular, do autêntico, do emancipatório. Este elemento, a meu ver, coloca problemas à lógica particularista das disputas multiculturais, como também reforça a lógica multicultural. O argumento a seguir pretende ser uma tentativa de explicitar esta problematização.

2. O terceiro e a lógica da globalização
A globalização introduz um terceiro na relação entre o local e o nacional, o local e o regional, o regional e o nacional que interrompe o fluxo linear de relações e comunicação onde estas polaridades se desenvolviam até vinte anos atrás, reguladas pela unidade do estado-nação e pela repartição territorial das trocas econômicas, políticas e culturais (exemplarmente capturada na expressão “relações internacionais”)[6]. Este terceiro introduz uma lógica desterritorializante e desinstitucionalizante em relação ao contexto anterior, repleta de paradoxos e expressa em aspectos como: quebra da pretensão de universalidade dos discursos políticos e culturais; quebra da soberania do estado nacional em questões-chave de política doméstica; introdução de valores e parâmetros de gestão pública em voga no âmbito da “sociedade civil global” (gênero; meio ambiente; multiculturalismo; direitos humanos; a primazia da ação local, efetivada por uma pluralidade de atores em parceria; etc.); ruptura de modos de vida associados às raízes ou atributos essenciais de comunidades locais, categorias sociais ou identidades culturais.

2.1 Caracterizando o terceiro da globalização
O terceiro da globalização não é um mega-sujeito. Nem o sujeito imperialista – por mais que tenhamos a impressão de que os Estados Unidos se transformam crescentemente no gendarme do sistema-mundo; nem o sujeito multilateral representado pelas Nações Unidas ou por organismos internacionais – embora estes sejam perceptivelmente agentes da globalização (exemplo do Banco Mundial ou da Organização Mundial do Comércio); nem o sujeito classe – poucos ousam alinhar a globalização com um esquema da burguesia ou uma concertação das elites empresariais dos diversos países com vistas a impor um determinado modelo de dominação econômica. Na verdade, o terceiro da globalização não é um sujeito em nenhum sentido antropomórfico ou sociologizante. O terceiro da globalização se “materializa” em múltiplos agentes, uns mais benignos, outros mais perversos, que têm em comum não a adesão a uma única cultura ou estratégia de globalização, mas o reconhecimento de que atuam num terreno movediço e em indefinida expansão. Este terreno já não se regula pelas coordenadas cartesianas de tempo e espaço, ou sociológicas de instituição e movimento, antes nele se joga com elas e as possibilidades e assimetrias que elas abrem. Nele, a disputa pelo conteúdo da globalização é o grande elemento impulsionador.

O terceiro é um princípio de antagonismo e diferenciação, algo que denuncia ou contesta – se justa ou injustamente somente se pode decidir analisando-se situações concretas - os limites da pretensão de singularidade, de desenvolvimento autônomo, de autoridade moral inquestionável, de estabilidade das ordens social ou comunitária vigentes. E isto se faz em nome da existência de aspectos não considerados, de grupos excluídos ou valores supervenientes, de processos ou tendências macro-societais ou macro-econômicas, os quais, desde a perspectiva dos litigantes, teriam prioridade sobre a autonomia local de organização e práticas.

Assim, a globalização funciona pela introdução da diferença exorbitante ou ignorada ali onde reina o contentamento ou a pretensão de autonomia contra interferências externas. Neste sentido, a lógica da globalização pode opor tanto o micro ao micro, como o micro ao macro, o macro ao mega, e vice-versa. Global não é o que é necessariamente maior, mais distante, nem mais forte. Global é o que (se) diferencia entre um campo que se regula por referências de soberania, autodeterminação, distintividade, e um campo que pretende se abrir – ou ser a abertura – para a renovação, inovação ou justiça que vêm descortinar novos horizontes. Se a diferença que emerge entre em meio à ordem vigente – local, nacional ou internacional – e aponta para o que ela exclui ou reclama das promessas que ela deixa irrealizadas, é politica ou moralmente virtuosa, se desemboca em alternativas viáveis à ordem questionada, são questões práticas, que só podem ser determinadas em contexto. Mas é em nome dessas diferenças não acolhidas, não respeitadas, não percebidas pela sociedade ou o estado que o terceiro da globalização interrompe a reprodução de um dado status quo.

Por outro lado, o terceiro da globalização é um princípio de oposição, um gerador de antagonismo. A introdução da diferença representa um desafio à estabilidade dos arranjos e fronteiras existentes, questiona a autarquia da comunidade, da instituição, do governo, do Estado. Não se trata de uma dicotomização do espaço social, político, econômico ou cultural. Naturalmente, o antagonismo produz uma fronteira entre dois campos. Mas esta já não é uma fronteira que atravesse o social de um extremo a outro. Nem é uma fronteira entre identidades já dadas, pré-constituídas, que vêm a se chocarem. É uma fronteira constituída em torno da emergência de uma questão em disputa[7], aí localizando lado a lado, “dentro” como “fora”, atores, temas e cenas que em outras disputas definem campos distintos. O antagonismo também não é uma situação de guerra, não precisa haver animosidades pessoais envolvidas, embora possa sempre (Schmitt sabia disto) levar ao confronto físico ou à guerra pura e simplesmente – e as dezenas de conflitos armados no mundo de hoje não nos permite esquecer isto. Mas o antagonismo que caracteriza o terceiro da globalização não pode ser extirpado, nem mesmo pelos tratados de paz. Ele pode sempre ressurgir, em outros lugares ou sob outras formas. A resolução dos conflitos não zera a atuação do antagonismo, apenas a deslocam para outros objetos[8].

Aqui já temos uma boa indicação do vínculo entre globalização e identidade: a afirmação, defesa ou contestação de identidades são um componente integral da lógica da globalização contemporânea. Por quê? Porque as identidades são, por vezes, o pomo da discórdia que expressa o terceiro da globalização – a globalização neste caso seria o berço da afirmação identitária, o contexto no qual a chamada fragmentação do sujeito desencadeia inúmeras tentativas de recomposição. Porque as identidades emergem na esteira dos efeitos desterritorializantes e desinstitucionalizantes da globalização, beneficiando-se do enfraquecimento das antigas unidades políticas e culturais da modernidade novecentista. Porque, enfim, as identidades reagem, numa tentativa de ressincronização espaço-temporal, aos efeitos desestruturantes da globalização, buscando em raízes do passado ou na idealização do presente uma forma de neutralizar o sentimento de ansiedade ou pânico ante a incerteza, a instabilidade e a permanente redefinição das regras e cenários que se instalam em nome da globalização[9].

2.2 Explorando a lógica da globalização
Dissemos acima que o que põe em comum os agentes da globalização é a disputa pelo seu conteúdo. É preciso dizer que não se trata de uma disputa pelo poder mundial, uma espécie de síndrome de desenho animado, onde gênios do mal mobilizam recursos para dominar o mundo. A inserção desses agentes têm níveis e impactos bastante diferenciados e a disparidade dos recursos é brutal. Mas não há mais a possibilidade de coordenar estes processos de disputa hegemônica sob uma única lógica ou direção, por mais abrangente que seja. Assim, a disputa pelo conteúdo da globalização se trava em torno de objetivos concretos, embora alguns de grande alcance, cuja resolução assegurará a uns a sensação de ganho e garantia de uma (maior) “cota” da cena global, enquanto mobilizará a outros em diferentes formas de resistência: a que aceita jogar o jogo (acreditando nas regras), a que recusa-se a jogar o jogo (partindo para o confronto a partir do lugar que ocupa, em torno das questões mais urgentes e inegociáveis que advoga) ou a que explora os interstícios ainda deixados a descoberto pelas disputas em curso. Pense-se nas grandes organizações ambientalistas e suas formas não-convencionais de protesto, ou nas manifestações críticas do sistema financeiro global (em Seattle, 1999; ou em Davros, 2000).

Certamente há alguns vetores gerais condicionando as disputas no cenário global, como já mencionei antes e retomo agora, ressaltando que não são os únicos:

Ü a quebra da pretensão de universalidade dos discursos políticos e culturais, tem deslocado as grandes narrativas da modernização, seja pela sua negação como modelo; seja pela tentativa de desenvolvimentos autônomos em contradição com grandes interesses políticos e econômicos internacionais; seja pela multiplicação dos caminhos tomados em nome destas narrativas, que explode a sua coerência interna, sua capacidade de dar unidade a tão diversas trajetórias; seja pela multiplicação dos atores da modernização.

Ü A quebra da soberania do estado nacional em questões-chave de política doméstica, representa tanto uma perda de autonomia, como o efeito da maior interconexão das sociedades contemporâneas – via mercados financeiros, os media, os organismos multilaterais e multinacionais, a incipiente sociedade civil global – limitando, mas não evitando, realinhamentos bruscos ou resistências aos “consensos” globais.

Ü A introdução de valores e parâmetros de gestão pública em voga no âmbito da “sociedade civil global”, de forma relativamente independente da aceitação ou reconhecimento das situações que os justificam. Entre tais valores e parâmetros se poderia mencionar: gênero; meio ambiente; multiculturalismo; direitos humanos; a primazia da ação local, efetivada por uma pluralidade de atores em parceria; exigências de eficiência e aferição do impacto das ações públicas; alargamento do espaço para o envolvimento da sociedade na gestão pública, compartilhando responsabilidades e atribuições ao lado do estado; etc. Estes novos critérios definidores da boa governança vêm interpor uma agenda para as políticas que não se prende à sensibilidade acumulada nos contextos nacionais e locais em relação aos valores e parâmetros mencionados. Não importa se gostemos ou não das políticas de promoção da igualdade de condições entre os sexos, se aceitamos ou não as políticas de discriminação positiva, de diálogo intercultural; se praticamos ou não de boa vontade os direitos humanos, etc. O que importa é que a credibilidade da organização, do governo ou do país é hoje aferida por sua sensibilização e operacionalização de políticas como estas. O que importa é que os recursos necessários hoje se vinculam a “condições aceitáveis” que passam pela implementação das diretrizes acima.

Não obstante esses vetores gerais, sua materialização raramente se faz em nome ou através de mega-atores. Em nome de ou contra a globalização, pequenos e grandes atores, isolada ou articuladamente, mobilizam, reivindicam e resistem a essas correntes. A ação intra e inter-organizacional; a ação coletiva; a ação governamental; a ação de redes territorializadas, temáticas e de influência (cf. Doimo, 1995), se contraem ou se expandem na dinâmica da intervenção do terceiro da globalização, em torno de interesses, demandas, valores e objetivos pontuais ou gerais.

3. A identidade como resposta, efeito e resistência à globalização
3.1 O terceiro e a identidade
Tudo parece indicar, à primeira vista, que o terceiro desterritorializante da globalização se oporia à experiência da identidade. Acostumados a pensar a identidade como enraizamento numa realidade socio-cultural particular e, no plano individual, como auto-conhecimento, auto-conceito e presença a si, tendemos a contrastar mais do que associar os dois termos. À vista do terceiro que mencionei anteriormente, é preciso desfazermos esta idéia. A globalização pode permitir a emergência de novas formas de identificação coletiva, as quais, por não mais se definirem em função de um pertencimento territorial, ou de uma tradição imemorial, mas em função de questões de relevância global, se subtraem às exigências de lealdade tradicional ou de atuação localizada.

Num sentido mais forte, a globalização requer mesmo a articulação da identidade, tanto na dimensão instrumental das relações de mercado, como na dimensão “expressiva” das relações intra e intergrupais, embora nem sempre estejamos diante de experiências identitárias com as características descritas no parágrafo anterior. Na sua versão instrumental, identidade se define no contexto da cultura de consumo, que globaliza a idéia de livre escolha e livre experimentação com bens e estilos de vida, produz e estimula a diferenciação, se alimenta da especialização, da produção de um diferencial cultural que se transforma num signo de vitalidade da cultura local (trunfo a ser explorado pela indústria do turismo), e da legitimidade de uma ordem social fundada na lógica do mercado. Identidade seria aqui a forma exteriorizada ou reivindicada de uma nova subjetividade. Outras modalidades de identificação se definem nesta perspectiva, como nas diversas “redescobertas” – em muitos casos coincidentes com verdadeiras invenções de tradições – de identidades culturais para diversos fins: impulsionar a indústria do turismo e do lazer; legitimar ações governamentais em disputas por recursos condicionados à adoção de práticas multiculturais; ajudar a criar uma nova imagem para empresas que lhes garantam acesso a determinadas fatias do mercado de consumo.

No caso da identidade como “expressão”, a globalização a requer na medida em que o deslocamento que o terceiro da globalização introduz no cenário local desencadeia mudanças, mas não pode ser indefinidamente continuado. O desenraizamento produz desorientação, ansiedade, sofrimento e destruição de formas de vida ou instituições que não podem ser suportados indefinidamente. Assim, a resistência da identidade – já não mais a mesma, porém uma que se modifica ao responder e “se afirmar” diante do desafio “de fora”, da lógica global – é uma contrapartida da globalização. Em nome da identidade enceta-se uma luta para restaurar um mundo nostalgicamente idealizado de simplicidade de vida, durabilidade dos arranjos sociais e proximidade e confiabilidade das relações entre as pessoas. Em nome da identidade se busca encontrar na origem comum ou num destino manifesto a orientação que contradiga as tendências desestabilizadoras e a incerteza do presente.

O terceiro da globalização não implica em que a identidade seja sempre experimentada ou reivindicada em bases globais, não-nacionais ou transnacionais. Antes, o que queremos ressaltar é que mesmo quando a identidade se expressa através do mais rigoroso fundamentalismo e isolacionismo, contra tudo o que seja maior do que ou exterior a ela, especialmente contra tudo o que lhe parece ser um complô das grandes potências ou grandes tendências econômicas, políticas e culturais do sistema mundial, ela não deixa de ser afetada pela globalização. Neste caso, o entrincheiramento da identidade como singularidade, localismo ou autenticidade pode ser uma reação a forças globalizantes, mas é também uma resposta a elas, um “sim” à agenda da globalização. Será reação ao tomar o global como a ameaça que vem de fora contra a integridade de um modo de vida local ou uma cultura nacional. Será uma resposta se sua emergência for atribuída ao afrouxamento dos laços ideológicos, políticos ou econômicos que impediam a expressão de tal identidade no âmbito nacional. Sem dúvida, a resposta pode ser ambígua, uma vez que nem sempre ela sai em defesa da globalização. Mas, o fato de beneficiar-se do “clima” global e de reivindicar seu espaço legítimo na “nova ordem mundial” – que coordena o global e o local, não esqueçamos – situa tais identidades no regime ou lógica da globalização.

3.2 A lógica da globalização e a lógica da identidade
Ao falar sobre a lógica da globalização, mencionei que a disputa pelo conteúdo da mesma se faz a partir de objetivos concretos, e não de uma intangível agenda global, e argumentei que há vetores gerais que produzem efeitos locais e que mobilizam atores grandes e pequenos. Trata-se de explorar agora como isto se relaciona com o tema da identidade.

Em primeiro lugar, eu ressaltaria que a lógica do terceiro representa um novo regime da relação entre o geral e o particular, o universal e o singular, na qual um curioso movimento se dá. A crítica aos universalismos modernos (expressos em objetos culturais ou modelos institucionais) não significa uma recusa do universalismo, mas uma localização do universalismo (cf. Robertson, 1991; Laclau, 1996). Ou seja, tanto identidades locais podem, em nome de certos direitos amplamente reconhecidos, reivindicar uma autonomia parcial ou mesmo secessão; identificar outros grupos sociais cuja presença representaria uma ameaça a ser neutralizada; ou ainda reclamar sua inclusão no “pacto de sociedade” mais amplo em que se inserem. Assim, ora temos micro-universalismos em conflito entre si e com o Estado, ora temos a reivindicação local do universalismo como demanda por inclusão.

O questionamento da soberania do estado nacional, nesta direção, implica na utilização das tendências globais (respaldadas em agências multilaterais ou em organizações civis de peso na formação da opinião pública mundial) para forçar mudanças na orientação das políticas nacionais em favor de atores coletivos que se beneficiam diretamente do clima de maior sensibilidade e assertividade existente em outros contextos nacionais – mulheres, negros, minorias étnicas (migrantes ou de segunda e terceira gerações, bem como indígenas), minorias religiosas, ambientalismo, etc. –, contrariando elites locais ou políticas. Mas pode-se também reivindicar contrapartidas à perda da autonomia do estado sobre certas questões de política doméstica, através de processos de negociação e coordenação supra-nacionais dos quais a face mais visível são os blocos de países organizados em função de interesses econômicos e políticos, segundo um imperativo de sobrevivência e reforço da competitividade (por exemplo, o Mercosul).

Por fim, a introdução de valores e práticas em contradição com a cultura política nacional ou local vem legitimar e reforçar a asserção, visibilidade pública e peso político de novos movimentos e alternativas organizacionais vinculados às mudanças culturais do pós-1968 e políticas dos anos 1980, abrindo espaços para o reconhecimento de diferenças e dificultando sua diluição nos amálgamas da identidade nacional, das ideologias políticas ou das práticas de cooptação paternalista. Porém, tais valores podem introduzir vieses desconhecidos no contexto local, redescrevendo problemas aí vivenciados em termos de padrões culturais e políticos dominantes em outras sociedades ou regiões. Desta forma, as demandas e conflitos locais se configuram em contraste com a experiência compartilhada, o que pode se expressar no sentimento de que as questões e soluções apresentadas implicam antes na imposição de poderes externos, ou na produção de atores coletivos híbridos, “glocais”, ao mesmo tempo enraizados num contexto local e definindo-se em termos transculturais.

O que resulta deste processo é a experiência da identidade como construção, ainda quando somos confrontados com movimentos e grupos que pretendem estar em direta continuidade com um passado ameaçado de destruição ou injust(ificad)amente violentado. Não há identidades pristinas, puramente expressivas. Há, em consequência da lógica da globalização reafirmações de identidades combinadas às novas ênfases e objetos de disputa; reinvenção de identidades para objetivos políticos ou mercadológicos (inclusive como forma de “apresentação” da diversidade local que funciona na indústria do turismo); e surgimento de novas identidades. Em cada um dos casos, construção da identidade – para legitimar uma situação, para resistí-la ou para introduzir nela novas questões e práticas que apontam para projetos de mudança social (cf. Castells, 1997).

E por que construir a identidade? Porque a questão do sentido torna-se bastante aguda num contexto onde os referenciais estáveis, naturais, de orientação no mundo se tornaram frágeis e insuficientes para garantir uma movimentação coerente e previsível no espaço social. A lógica do terceiro impõe um movimento de extensão e contração da sociedade civil e do estado no qual, segundo Castells, “não há mais uma continuidade entre a lógica da formação do poder na rede global e a lógica da associação e representação em sociedades e culturas específicas. A busca de sentido tem lugar então na reconstrução de identidades defensivas ao redor de princípios comunais. A maior parte da ação social vem a se organizar na oposição entre fluxos não-identificados e identidades isoladas” (1997:11). Como transformar a resistência local em novos sujeitos de mudança é, para Castells, o grande desafio de uma teoria da mudança social na era da informação.

Na medida em que o global se alimenta da diferenciação, ele investe sistematicamente o local, o comunitário, o regional como ingrediente de sua expansão. O local contra o nacional “atrasado”, o global contra o local “atrasado”. Mas também o local como possuidor de algo que a idéia nebulosa de globalidade não tem, uma singularidade ou exótica que podem ser trunfos em termos de reconhecimento, competitividade e lucro. O resultado disso é que a identidade, retomando o que disse anteriormente assume três configurações vis-à-vis o cenário global:

Ü A identidade é o pomo da discórdia que expressa o terceiro da globalização. Assim, a emergência de novas identidades, a economia das relações entre as identidades (explicitamente posta em tela pelo multiculturalismo), as perspectivas abertas pelo jogo da identidade no cenário global exprimem um aspecto constitutivo da dinâmica da globalização. Em outras palavras, a dimensão polêmica, controvertida, agonística da globalização aponta precisamente para a visibilidade e produtividade política que a questão da identidade assume. Falar de multiculturalismo é antes de mais nada apontar para este campo de contestação aberto pela operação do terceiro da globalização em contextos onde prevaleceram atitudes deslegitimadoras da diferença cultural em função da exclusão social, da inserção subordinada na ordem econômica e política internacional e da adesão aos modelos da modernização nos discursos liberais ou de esquerda.

Ü As identidades também emergem na esteira dos efeitos desterritorializantes e desinstitucionalizantes da globalização, beneficiando-se do enfraquecimento das antigas unidades políticas e culturais da modernidade novecentista – neste caso, não se trata necessariamente de novas identidades, podendo haver o retorno de antigas formas de identificação comunitária julgadas extintas pelos discursos da modernização. Pode ser o caso aqui que uma série de deslocamentos (econômicos, políticos, culturais) tenham o efeito de tornar os indivíduos susceptíveis à interpelação de uma pluralidade de formas de identificação, fraturando-os como unidades auto-centradas e causando-lhes mal-estar e sofrimento, ou liberando-os de uma submissão estreita a uma única comunidade ou instituição social. Tal interpelação instaura uma competição entre formas de identificação, mas também enseja experimentos de esteticização da subjetividade os quais, embora provisórios ou apenas parcialmente bem sucedidos, vão fazendo surgirem múltiplos “agenciamentos de subjetividade” (Guattari), no contexto de pequenos e grandes agrupamentos de pessoas.

Ü As identidades, enfim, reagem, num movimento de ressincronização espaço-temporal, aos efeitos desestruturadores da globalização. Esta reação pode vir sob a forma da retração, “privatização”, ou da intolerância contra o que parecem ser os perigos ou inimigos da “abertura” aos fluxos globais para a segurança, a sobrevivência, a auto-referencialidade dos projetos do grupo. Pela impotência ou pela assertividade agressiva do “seu” espaço, tenta-se reestabilizar o estado de fluxo, as exigências de contínuo reajustamento, as incertezas de um futuro desconhecido. Neste contexto, a religião, o nacionalismo, a organização em bases territoriais locais são algumas das expressões deste desejo de interromper os fluxos de mudanças permanentes e aparentemente sem direção que sobrevêm a sociedades nacionais ou grupos/comunidades sub-nacionais como efeitos de uma espécie de destino incompreensível e implacável.

4. Desafios ao multiculturalismo: o lugar da identidade no contexto global
Destacamos na introdução o caráter contencioso das demandas e práticas multiculturais e procuramos argumentar que um dos elementos importantes desta contestabilidade reside na dinâmica complexa dos vínculos entre identidade e globalização. Se as energias iniciais para as demandas multiculturais podem remontar às lutas pelos direitos civis e aos desdobramentos dos movimentos estudantis no final da década de 60, então seria preciso admitir que a emergência da identidade como preocupação, como reação ou como projeto já estava implicada num movimento de proporções internacionais. Durante os anos 80 e 90, as demandas multiculturais tornaram-se decididamente globais em sua extensão e disseminação.

Esta disseminação, entretanto, nem ofusca, nem diminui o potencial polêmico do multiculturalismo. Assim como o terreno da globalização é disputado, também o é o das identidades coletivas passíveis de constar na lista dos atores “legítimos” do multiculturalismo. Mais do que uma emergência pura e simples, tomando a forma de diferenças cuja positividade seria indisputável, as identidades reivindicadoras de práticas multiculturais estão simultaneamente em processo de construção e em disputa pelo reconhecimento dos agravos e cenários onde sua postulação cobra ares de objetividade incontestável. O fato, porém, de que não podemos simplesmente escolher quais manifestações identitárias – por nos parecerem mais aceitáveis ou progressistas – poderiam fazer parte da “lista”, o fato de que há identidades reativas, intolerantes e fechadas em si mesmas, nos adverte para alguns desafios que, postos a estas identidades, estendem-se também às chamadas “novas identidades” e, a fortiori, ao multiculturalismo.

Concluiríamos, então, ressaltando, de forma puramente evocativa, alguns desafios que o contexto da globalização coloca à experiência da identidade – pessoal e coletiva – e às políticas multiculturais que se põem em sua defesa.

Em primeiro lugar, o desafio da abertura. Tradicionalmente, a idéia de identidade foi associada a um “seu-próprio” que não se dividia com outros, que se pretendia proteger dos outros e que determinava uma uniformidade interna entre os “portadores” de tais atributos. Além disso, a identidade se revestia de uma atemporalidade que escondia tanto a história de seu desenvolvimento como a existência de outras possibilidades de sua expressão que foram preteridas ou derrotadas ao longo desta história. O cenário da globalização, ao alterar os processos tradicionais de produção e reprodução da identidade, confronta-a com sua própria historicidade – e, portanto, com a possibilidade de ser diferente de si mesma, heterogênea consigo mesma – e com a relação ao outro – e, portanto, com a necessidade de reconhecer dentro de si a presença (ausente) de outros sujeitos e de negociar com eles suas demandas e valores.

Em segundo lugar, o desafio da reflexividade. A “ameaça” de invasão, destruição ou subordinação que a inserção nos fluxos globais representa para as identidades localistas, ou a resposta ao desafio da abertura, têm cobrado que a identidade trabalhe sobre si mesma. Recomponha-se, investigue-se, critique a si mesma e elabore estratégias para sua atuação e suas relações com outras. A avaliação permanente das suas condições de existência e de suas chances de melhora relativa no espaço social, político, econômico e cultural impõe um permanente retorno sobre si mesma que, embora não signifique a possibilidade de compensar a perda da estabilidade, a aura atemporal e a falsa homogeneidade que geralmente as experiências identitárias cultivam, torna-se um elemento habilitador nas relações com outras identidades.

Em terceiro lugar, o desafio da política. Embora muito se fale sobre a decadência ou a retração da política no contexto contemporâneo, a leitura que oferecemos aqui só pode insistir sobre a centralidade da política na análise da identidade. Não se trata especificamente da política tradicional – centrada na agregação de interesses através dos partidos e seu processamento através dos mecanismos de políticas governamentais. Trata-se da dimensão política da identidade. A perda da referência a-histórica e os deslocamentos colocados pelo contato com o terceiro da globalização exigem das identidades um esforço de construção. Reivindicar uma origem indiferenciada e imemorial, ou uma visão naturalizada (determinada pelo nascimento, a condição biológica ou o solo pátrio), não é suficiente ou mesmo possível para assegurar sua continuidade/reprodução. Identidades são construções tanto no sentido histórico, como no sentido da ação estratégica; elas são o resultado de uma série de operações e investimentos coletivos. Mais, o fato de que a identidade não se define de modo autárquico, sem referência com um antagonismo face a um “inimigo”, e sem a “costura” de equivalências entre suas demandas e valores e as de outras, a negociação (que implica em conflito, argumentação, mobilização e compromissos) é outra característica do desafio político à identidade. O peso do global, as assimetrias entre atores nacionais e locais, o grau de organização interna de cada grupo colocam o desafio da negociação.

Finalmente, o desafio do pluralismo. Os cenários da globalização não remetem a um sistema centrado e governado a partir de um único conjunto de critérios, não comportam macro- ou micro-atores imbuídos de pretensões imperiais ou autonomistas, nem assumem o custo da homogeneização das diferenças. O desafio então, que tem estado entre os maiores dilemas e contradições da onda contemporânea da globalização, é o de que o regime de repartição dos recursos socialmente relevantes para os diferentes grupos que reivindicam inclusão, justiça ou reconhecimento produza uma tolerância ativa das diferenças no contexto da “consciência possível” da comunidade nacional, da cultura regional e local, ou seja, assumindo-se que nunca será possível tolerar todas as diferenças, nem impedir que o intolerável reapareça. Pluralismo não pode, neste contexto, significar um congraçamento geral, uma nova forma de comunidade plena, mas um espaço de emergência de demandas que não somente expressam injustiças passadas, mas a exclusão sobre a qual se assenta toda ordem social.



Joanildo Burity.



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Segue atividades voltadas ao tema realizadas no CEI que trabalho.
Essas atividades foram realizadas com o auxilío da professora Jociene de acordo com o texto extraído da net.Texto acima do Joanildo Burity.